Nova Friburgo,

Entrevistas


Professora Margaria Carvalho de Santana

Tessituras: Professora, a revista Práticas de Geografia ganhou destaque por conta da edição especial sobre a tragédia de 12 de janeiro. Foi agraciada com o Prêmio Destaque Ambiental, concedido pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente de Nova Friburgo e recebeu moção de louvor do Conselho Municipal de Educação. Fale-nos um pouco da trajetória da revista e da elaboração deste número especial.

À medida que o Curso de Geografia se desenvolve, acumulam-se conhecimentos teóricos e experiências práticas. Nesta trajetória, aprendemos a considerar que a teoria e a prática são polos associados, diferentes, mas não necessariamente opostos. Daí adveio o projeto de se realizar o registro escrito e a publicação das experiências teóricas e práticas vivenciadas durante o curso, o que se justifica pelo reconhecimento do trabalho realizado no espaço restrito e, muitas vezes, anônimo da sala de aula.

O compromisso com a produção acadêmica, enquanto estratégia de aprendizagem, motiva o esforço de superar os desafios e produzir a Revista Práticas de Geografia. Os objetivos iniciais da publicação da revista foram, entre outros: divulgar experiências de ensino e debates teóricos realizados durante o curso de Geografia da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia; promover a disseminação efetiva de sugestões de práticas pedagógicas que possam enriquecer o fazer dos professores de Geografia, no dia a dia da sala de aula do Ensino Fundamental e Médio; apresentar recursos didáticos de fácil aquisição e montagem; divulgar resultados de investigações sobre práticas de ensino em Geografia, trabalhos apresentados em encontros e congressos da área específica e da área de educação; divulgar eventos locais, regionais e nacionais relacionados ao ensino de Geografia e ciências afins.

No intuito de ampliar as possibilidades de ações entre áreas do conhecimento, o colegiado do curso de Geografia achou por bem abrir um espaço, na revista, para professores e alunos de outros cursos de graduação ou pós-graduação que desejam apresentar um trabalho com pontos de articulação entre a prática de Geografia e as respectivas áreas de conhecimento e suas práticas.

Reconhecendo o compromisso com a sociedade, que há anos nos prestigia, a equipe responsável pela produção da revista Práticas de Geografia deliberou editar e distribuir um número extra com o objetivo de colaborar na ampliação e aprofundamento das reflexões diante do ocorrido, na região, com a calamidade climática de janeiro último. Os artigos, as fotografias e depoimentos pretendem servir de alerta e estímulo para uma nova maneira de se pensar a organização urbana de nossas cidades. E a comunidade da FFSD tem participado desse processo com diversificados projetos.

Tessituras: Agora, conte-nos sobre sua trajetória acadêmica. Qual a importância da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em sua vida?

É longa. Tentarei ser sintética.

Cursava, ainda, o Normal (curso de formação de professores, de nível médio) quando assumi uma turma da 3ª série (hoje 4º ano). Quantos calafrios! Quantas madrugadas estudando os “pontos”, respondendo previamente os exercícios, recortando cartolina etc.!

(Na preparação das aulas que dei no segundo semestre de 2011, de Metodologia do Ensino de Geografia para os primeiros anos escolares, no curso de Pedagogia, eu me vi fazendo as mesmas coisas... e não faltaram calafrios!)

Com o diploma de “professora primária” iniciei minha trajetória profissional. Tive a oportunidade de ingressar no curso de Letras, numa instituição privada; contudo, os limites impostos por questões financeiras me obrigaram a abandonar os estudos.

Alguns anos depois, fiz vestibular para a Universidade Federal Fluminense, para Pedagogia – Orientação Educacional e Supervisão Escolar, no turno da noite. A opção por Pedagogia foi influenciada pelo fato de estar engajada na docência (nas redes pública e privada) e, na ocasião, atuando na coordenação geral do colégio Portal do Saber, em Niterói.

Na Universidade Federal Fluminense, fiz também o mestrado em Educação e lá ingressei como professora.
Nessa época, por ter trabalhado no colégio Santa Dorotéia, no Rio de Janeiro, fui indicada para lecionar no curso de Pedagogia, na Faculdade Filosofia Santa Dorotéia. Foram dois anos de muito enriquecimento pessoal, do qual tive que abrir mão, devido à opção pela dedicação exclusiva à Federal Fluminense.

A intensa vida acadêmica, aliada à vivência cotidiana na sala de aula (da educação infantil à pós-graduação), me motivou a assumir a militância estudantil e sindical. Atuar no Diretório da Faculdade, no Diretório Central da UFF, depois, na seção sindical da UFF - ADUF.s.sind. e no Sindicato Nacional – ANDES-sn, nos momentos densos da História do Brasil (ações de rua nos anos da ditadura, cruciais do período da transição para a liberdade constituinte, elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira/LDBEB, transformações das associações em sindicatos etc.), foi uma experiência de vivência política e acadêmica muito enriquecedora.

Dos anos de militância profissional na UFF, tenho que destacar aqueles nos quais atuei como uma das diretoras do Espaço UFF de Ciências, um programa de extensão da Universidade, que atuava em parceria com outras instituições e programas afins, cujo objetivo era o de popularização das conquistas científicas e tecnológicas junto às redes escolares e à população em geral. Esses anos de atuação, na qualidade de pedagoga, com colegas das diferentes áreas da Ciência é que me possibilita, hoje, participar, na Editora do Brasil, de uma equipe de autores de livros didáticos de Ciências (aprovados pelo Plano Nacional do Livro Didático/PNLD-MEC).

Certa tarde, em Niterói, num encontro casual com a profª Selma Ferro, em meio a uma conversa animada, informei-a de que havia me aposentado da Federal Fluminense. Ela, então, me honrou com convite para voltar a lecionar na Santa Dorotéia. Levei uns meses para me desligar de outros compromissos e... aqui estou, há onze anos.

Como tecer minha resposta à pergunta sobre a importância da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em minha vida?

A Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia tem o carisma – e é, além disso, dotada da intencionalidade – de transformar um endereço no Centro de uma cidade serrana em lugar, conceito que aprendi com os colegas do curso de Geografia. Lugar onde as relações de afetividade são desenvolvidas por todos que habitam suas salas, biblioteca, secretarias, corredores, cantina, que se esmeram no estudo e debate que geram novos saberes, numa perspectiva de sociedade fraterna. A FFSD é um produto de experiências de trocas de conhecimentos, de emoções ... no jardim, sempre florido, nos sentimos acolhidos. O “boa noite” sorridente dos colegas e alunos traduzem a certeza de pertencimento, a boa sensação de lar. Parafraseando Buttimer, a FFSD “é o somatório das dimensões simbólicas, emocionais, culturais, políticas e biológicas” que me foram concedidas viver, nestes anos em que aqui exerço o meu papel social de educadora.

Tessituras: O curso de Geografia da FFSD se destaca por organizar importantes atividades extracurriculares, tendo conseguido, inclusive, a aprovação da FAPERJ para projeto de pesquisa a ser desenvolvido por professores e alunos. Relate-nos estas experiências.

A realização de alguns projetos povoava os desejos da equipe de professores do curso: envolver os alunos em programas de estudo e/ou pesquisa; equipar uma sala para dinamizar atividades curriculares e extras curriculares; ampliar e socializar a pesquisa sobre a Baixada Fluminense e outros estudos realizados individual ou coletivamente pelos componentes do curso de Geografia. A partir de uma deliberação de reunião do colegiado, o prof. Sidney Cardoso dos Santos Filho fazia buscas de editais de agências de fomento nos quais nossos projetos pudessem ser contemplados. Assim foi. Tivemos um deles aprovado no edital de Apoio à Produção de Material Didático para Atividade de Ensino e/ou Pesquisa – FAPERJ. 2009/2010. Da execução do projeto “ALMA(NAQUE) BAIXADA!” resultou a produção de um almanaque a partir de pesquisa empírica e de dados coletados (no IBGE, CEPUERJ, DETRAN entre outros órgãos) sobre os municípios da Baixada Fluminense. O Alma(naque)... Baixada! encontra-se em versão digital, com perspectiva de ser utilizado pelos professores em suas salas de aula. Com esse projeto pode-se, também, dar continuidade a um sonho pouco acessível a muitas faculdades privadas isoladas: inserir alunos do curso de licenciatura plena em geografia no universo da produção científica. Com a verba destinada para materiais permanentes e de consumo conseguimos, finalmente, montar uma sala-laboratório equipada com material pedagógico utilizado em disciplinas relacionadas à geografia física e humana. A partir do contato mais íntimo com essa psicosfera de pesquisa acadêmica, os professores e alunos propuseram a criação de um grupo de pesquisa em geografia – o CEFEG (Centro Friburguense de Estudos em Geografia). Este grupo tem reuniões semanais e é composto por professores tutores e alunos monitores que buscam ampliar sua base teórico-conceitual acerca de diferentes temas ligados à geografia e ao meio ambiente da região serrana fluminense. Os participantes do CEFEG atuam, no suporte logístico, na organização dos eventos programados pelo departamento de Geografia da FFSD, para debater temas da área de geografia e meio ambiente que tenham relevância acadêmica e social e participam, mesmo que ainda como ouvintes, de fóruns municipais e regionais (educação, meio ambiente, comitês de bacias etc.).

Para o ano de 2012, a equipe do CEFEG estará executando, em nome da FFSD, que foi selecionada para tal, o Programa Agenda Água na Escola – Educação Ambiental voltada para a Gestão de Recursos Hídricos, projeto financiado com recursos do Comitê de Bacia Hidrográfica/CBH – Rio Dois Rios do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FUNDRHI), sob a concessão da Secretaria de Estado de Ambiente.

Tessituras: Você preside o Coral Anima da FFSD. Fale-nos também desta rica experiência cultural.

Realmente, o Coral ANIMA, formado por alunos, professores, funcionários, ex-alunos e por pessoas da comunidade, é uma rica e prazerosa experiência cultural. De acordo com o seu nome, o ANIMA, do latim, quer dizer alma, coloca a ênfase do trabalho em cantar com a alma, com expressão e sentimento e busca instigar seus componentes a diversificar a experiência estética tendo como viés a musica. Assim o coral atende à proposta educativa da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia de ampliar e aprofundar a compreensão da complexidade e especificidades das diferentes linguagens da expressão humana, junto à (re)criação de formas de comunicação.Transcendendo o espaço da educação formal, o coral ANIMA, desde sua primeira apresentação, no Ano Jubilar da FFSD, em dezembro de 2006, no intuito de compartilhar suas experiências estéticas com a comunidade local e regional, promove apresentações regulares nas festas de Natal e Páscoa, dentre outras datas significativas para o Cristianismo, em eventos culturais e educacionais como encontros de corais, Festival de Inverno, congressos, encontros acadêmico-científicos e atividades comunitárias, em Nova Friburgo e outros municípios. Em seu repertório incluem-se músicas sacras, eruditas e populares, de nossa e de outras culturas. Além dos recursos vocais e instrumentais, o grupo trabalha com diversas linguagens artísticas como teatro, declamação, contação de histórias, malabares, expressão corporal e artes plásticas. Os méritos do Coral ANIMA devem, por justiça, ser atribuídos ao seu regente, o maestro Alfredo José da Cunha, que com sua competência e sensibilidade nos faz cantar com emoção e emocionar a quem nos ouve. Não posso deixar de mencionar a dedicação da funcionária Teresinha Reina e da profª Neli Oliveira Ferreira; a parceria com outros músicos, grupos musicais, com profissionais das artes cênicas; e também, é claro, a perseverança dos coralistas.

Tessituras: Além do Coral, há o Clube de Astronomia. Como consegue dar conta de tantos compromissos?

Plagiando Betania Tanure, uma colega da PUC-Minas, afirmo que ninguém é perfeito, mas uma equipe pode chegar perto da perfeição. É isso. Tanto na coordenação do curso de Geografia e de pós-graduação em Planejamento Urbano-Ambiental, no qual compartilho a coordenação com o prof. Alex Lamônica, na produção da revista Práticas de Geografia e na execução de diversos projetos do curso de Geografia, como no Coral Anima, no Clube de Astronomia de Nova Friburgo/CANF conto com equipes de profissionais competentes, comprometidos e entusiasmados. O CANF, além, dos encontros mensais – com palestras, observação do céu do mês -, desenvolve projetos nas escolas e em outros espaços públicos, participa de exposições e de eventos em parceria com outros clubes ou centros de divulgação da Astronomia. Sem pretender cometer injustiça, destaco o empenho do Dr. José Carlos Diniz e do prof. Reinaldo K. Ivanicska Jr., responsáveis pelas atividades do CANF, que é um projeto parceiro do Curso de Geografia, da FFSD.

Tessituras: Como você avalia o quadro nacional da Educação hoje? Há esperanças de mudança?

A constatação do descompasso abissal entre os discursos políticos (eleitoreiros, para os quais a educação é sempre a prioridade das prioridades) e dos teóricos da educação e a realidade desanimadora do cotidiano da maioria de nossas escolas responde essa pergunta melhor do que eu, mesmo no rigor científico de uma tese acadêmica.

Tenho acompanhado, com pesar, o processo de desistência da profissão de professor de muitos colegas jovens e competentes que, certamente, poderiam contribuir para a melhoria do quadro que se configura em nossas escolas.

Não desejo, aqui, apresentar um tratado de axiologia, no entanto, tendo a pensar que a questão da sociedade, que se reflete no desnorteamento da educação e da escola, é a concomitância das duas vertentes que referenciam as teorias e práticas educativas: de um lado, a vertente que privilegia o indivíduo e, de outro, a que privilegia a sociedade. Sem o ponto de equilíbrio, não se distinguem os valores intrínsecos e os extrínsecos. Na falta de princípios consensuais que sirvam de orientação para as decisões (das legais às do dia a dia das escolas) e para o comportamento ético de quem busca uma vida digna, respeitosa e solidária, ficamos oscilando na contradição entre a teoria e a prática.

Creio que na busca do equilíbrio não podemos abrir mão dos direitos individuais à autonomia, à felicidade; tampouco podemos reduzir os deveres a níveis próximos a zero e enaltecer os direitos e interesses subjetivos; a escola não pode perder a perspectiva histórica de agente na construção coletiva de uma sociedade justa e democrática.

Não estou, aqui, equivocadamente, defendendo a volta ao código ético fixo, rígido e universal, o que seria negar o tempo histórico que vivemos. Do ponto de vista de quem atua em sala de aula, no contexto de nossa realidade social que precisa encontrar alternativa para a situação de desigualdade e carência múltiplas, sonho com uma nova utopia que impulsione e oriente o fazer da educação, compreendida como um modo de práxis social. Minha esperança de mudança está, pois, colocada nos educadores (por cuja formação nós, na FFSD, somos responsáveis), que, além de serem possuidores de competências, habilidades e de conhecimentos científicos e tecnológicos, assumam compromissos éticos sociais/planetários e políticos, se engajem nos debates e luta pela melhoria da educação, em particular, e, num quadro mais amplo, que lutem pela melhoria social e pelo respeito à natureza.


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