Nova Friburgo,
Editorial



O número 4 da Revista Tessituras (quinta edição da publicação eletrônica mantida semestralmente pela Associação de Docentes da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, em Nova Friburgo/RJ, pois sempre levamos em conta o lançamento do número zero, de novembro de 2009) apresenta, em destaque, a entrevista com a Professora Margarida Carvalho de Santana, pedagoga formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela mesma universidade, professora nos cursos de Pedagogia e Geografia e coordenadora do departamento de Geografia da FFSD.

A escolha da Professora Margarida para a entrevista não se deu por acaso: nossa colega, além de cumprir com seus compromissos profissionais, dedica-se a importantes atividades dentro e fora da Faculdade, tais como a projetos de pesquisa, ao Clube de Astronomia e ao Coral Anima, composto por alunos, professores e funcionários da FFSD. Cabe destacar a sua participação, juntamente com o Prof. Sidney Cardoso, à frente da Revista Práticas de Geografia, cujo exemplar especial, lançado durante o ano de 2011, cumpriu fundamental papel nas discussões em torno da tragédia climática que se abateu sobre a região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Com forte presença do departamento de Geografia, a Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia tomou a dianteira na organização de debates e seminários que possibilitaram a reflexão profunda dos acontecimentos e suas razões de caráter histórico, social e político, para além das implicações de ordem natural. Por causa dessa edição especial, a Revista Práticas de Geografia foi agraciada com o Prêmio Destaque Ambiental, concedido pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente de Nova Friburgo e recebeu moção de louvor do Conselho Municipal de Educação.

A Professora Margarida nos relata sua trajetória profissional e militante na Educação, desde sua formação como “normalista” até o Mestrado na área, destacando o período de intensa participação política e sindical, nas lutas contra a ditadura e pela construção do sindicalismo docente na Universidade Federal Fluminense. E nos conta sua história de amor com a Faculdade Santa Dorotéia, espaço definido por ela como: “Lugar onde as relações de afetividade são desenvolvidas por todos que habitam suas salas, biblioteca, secretarias, corredores, cantina, que se esmeram no estudo e debate que geram novos saberes, numa perspectiva de sociedade fraterna”.

Na análise que faz sobre o quadro da Educação em nosso país, constata o “descompasso abissal” entre os discursos eleitoreiros em que a educação sempre aparece como prioridade máxima e a triste realidade vivenciada por quem se dedica rotineiramente ao trabalho nas escolas, descompasso este responsável pela desistência da profissão por grande parte do professorado atual. Mas o quadro desalentador não lhe tira a esperança de fazer com que a escola se transforme em agente da construção coletiva em prol de uma sociedade justa e democrática. Segundo suas próprias palavras:

“Minha esperança de mudança está colocada nos educadores, que, além de serem possuidores de competências, habilidades e de conhecimentos científicos e tecnológicos, assumam compromissos éticos sociais/planetários e políticos, se engajem nos debates e luta pela melhoria da educação, em particular, e, num quadro mais amplo, que lutem pela melhoria social e pelo respeito à natureza.”

Para os artigos deste número 4, contamos com a colaboração de oito articulistas e um resenhista, a começar por Alexandre Jacintho Teixeira, Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Supervisor Regional Serrano da EMATER-RIO, Secretário Executivo Regional do Programa Rio Rural da Superintendência de Desenvolvimento Sustentável da Secretaria Estadual de Agricultura e Pecuária (SEAPEC). Seu artigo, baseado na monografia apresentada para a conclusão do Curso de Pós-Graduação em Planejamento Urbano-ambiental pela Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, trata do uso da tecnologia de geoprocessamento para identificação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) em microbacias hidrográficas e a ocorrência de infrações oriundas das ações destinadas às atividades agropecuárias. Utilizando como estudo de caso a microbacia de Dona Mariana, em Sumidouro-RJ, conclui que, se as Áreas de Preservação Permanente estivessem totalmente protegidas, com as atividades agropecuárias localizadas em áreas permitidas por lei e as moradias construídas em áreas de baixo risco, muitas vidas teriam sido poupadas na tragédia que se abateu sobre a Região Serrana em janeiro de 2011.

A ex-aluna do curso de História da FFSD e mestranda em Educação na UFRRJ, Aline Nunes Ferreirinha, em conjunto com a mestre em Educação pela UFF, Viviane de Souza Rodrigues, analisam o processo de crescimento do ensino superior privado no Brasil nos últimos quarenta anos, desde o período da ditadura implantada por meio do golpe militar de 1964, quando passou a vigorar teoria educacional com origem em políticas estadunidenses, em que o processo de educação escolar é considerado investimento para resultar em maior produtividade para o capital, ou seja, educação para formar “capital humano” a serviço do empresariado. O artigo estuda também a ação dos governos Lula na área da Educação, de 2003 a 2010, demonstrando seu alinhamento às diretrizes macroeconômicas ditadas pelo capital aos países periféricos. As diferentes iniciativas adotadas pelo MEC, nos últimos anos, em consonância com os princípios difundidos pelos organismos financeiros internacionais, mormente no ensino superior, através de medidas como PROUNI, REUNI e o incentivo à educação à distância, dentre outras, comprovam a opção política em favor da galopante e absurda expansão do setor privado em nosso país.

Ainda no campo da Educação, o artigo do professor do curso de Letras da Faculdade Santa Dorotéia, Felipe Ferreira, apresenta importante discussão sobre a onda tecnológica que, além de adentrar o cotidiano dos cidadãos do Brasil e do mundo em seus espaços íntimos, passou a frequentar as salas de aula e outros ambientes educacionais. Sua reflexão busca nos conectar às consequências da utilização dessas novas técnicas e à verdadeira contribuição de seu uso para a educação, tendo em vista que, para além do reconhecimento da necessidade de adaptação aos novos tempos, é preciso evitar cair no mero tecnicismo, por meio do qual a forma acaba suplantando o conteúdo do fazer pedagógico. No momento em que a globalização capitalista impõe conceitos pós-modernos na área da cultura e da educação, nosso autor resgata o pensamento crítico de Paulo Freire para propor a coexistência do entusiasmo proveniente da Escola Nova e da “educação para a liberdade” com a praticidade da técnica, como fatores possíveis para a construção do projeto educacional brasileiro.

Por sua vez, o mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Emílio Araújo, produziu um texto instigante sobre a gestão escolar privada no Chile, desconstruindo o mito criado principalmente pela grande mídia capitalista, segundo a qual o modelo educacional implantado pela ditadura de Pinochet, e até hoje vigente, seria um exemplo de sucesso. Conforme demonstra o texto, os resultados apurados nas avaliações do sistema chileno revelam que, na verdade, não se cumpre uma das principais promessas da lógica neoliberal que alimenta o plano: a de que os estudantes aprenderão mais em uma organização educacional que cultua a competição entre alunos, professores e escolas. Uma das faces mais desumanas deste processo é a exclusão dos alunos mais pobres e/ou com desempenhos escolares considerados abaixo da média. Mesmo assim, as escolas particulares chilenas não param de crecer, financiadas por fundos públicos e amparadas por uma ordem jurídica que favorece seus negócios. Sem dúvida alguma, o artigo do Professor Emílio Araújo muito contribui para a compreensão das lutas estudantis e populares que explodiram no Chile, num grande protesto contra o sistema educacional privatista e excludente, manifestações estas que dizem ao mundo que “alguma coisa está fora da ordem”.

Três outros artigos focam temas ligados à Literatura. Luiz Fernando Dias Pita, doutor em Letras e Professor Adjunto da UERJ, aborda o tema do ponto de vista histórico, ao apresentar resultado de pesquisa original sobre o acervo de Walter Pinto, empresário teatral que promoveu verdadeira revolução estética e administrativa no teatro de revistas no Brasil, durante a era Vargas. Destaca-se, no artigo, a análise sobre as peças teatrais produzidas durante a Segunda Guerra Mundial, as quais refletiam, ao mesmo tempo, fatos históricos daquela conjuntura internacional e a influência da política autoritária do Estado Novo. Daí resultaram, de um lado, a adoção de uma estética pautada pelos musicais da Broadway – revelando a forte influência da cultura norte-americana – e, de outro, a interferência aberta do DIP, o famigerado departamento de propaganda ideológica da ditadura varguista, responsável pela imposição de vários cortes aos textos, por conta da censura, mas também pelo incentivo à temática da guerra, numa perspectiva ufanista em torno do esforço do Estado brasileiro para participar do conflito internacional.

Já o texto de Iracy Conceição de Souza, Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), interpreta o conto de Eça de Queirós, Singularidade de uma rapariga loura, de 1874, à luz da teoria psicanalítica de Freud e Lacan. No conto, a história de amor de um jovem honesto e trabalhador, Macário, por uma rapariga aparentemente dócil e sem vontade própria, Luisa, coloca em cena, segundo a autora do artigo, o drama crucial do homem, dividido entre o desejo e o dever. A escolha pelo dever, implicando a renúncia do desejo, faz com que a personagem masculina seja massacrada pela imposição moral do superego e pelo medo da mulher, a qual permanece enigmática.

Também na linha da interpretação de uma obra poético-literária, Luiz Fernandes de Oliveira, Professor Adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e Mônica Regina Ferreira Lins, Professora Assistente da UERJ, abordam a questão da utopia e do princípio “esperança”, formulados por Ernst Bloch (um dos principais filósofos marxistas alemães do século XX) para interpretar a canção Um Blasfemo, do cantor e compositor italiano Fabrizio De André, que desenvolve uma crítica à interpretação difundida por longos anos pela Igreja Católica sobre o mito do Pecado Original. O objetivo do artigo é promover nova interpretação acerca do mito de origem do povo cristão, reafirmando a condição humana que, segundo Bloch, é condição necessária para a compreensão das possibilidades de transformação da realidade social. Os autores desmistificam a ideia de paraíso onde tudo funciona sem conflitos, sem erros e sem ambições. Seguindo Bloch, asseveram que a promessa da serpente, na verdade, foi dar voz à ansiedade de libertação do homem, ao seu desejo de conhecimento, à vontade de sair da condição de pura animalidade em que se encontravam Adão e Eva antes do pecado original. Utilizando as palavras do filósofo alemão, atestam: “não existe nada mais humano do que o desejo de se transformar em Deus” e de conhecer o bem e o mal – entendidos aqui como todas as possibilidades de vida.

Por fim, temos o artigo de Daniele Salomão, Mestre em História pela UERJ, que analisa a cultura mesoamericana no período da conquista do México pelos espanhóis. O estudo de caso foca o papel da índia Malinalli, também conhecida por Marina ou Malinche, no processo de dominação exercido pelos europeus na América Central. Por meio da palavra de Malinalli e de outras mulheres a ela assemelhadas, que serviram como tradutoras para os espanhóis, em particular para o conquistador Hernán Cortés, favoreceu-se a conquista do Novo Mundo, pois o domínio da língua da terra conquistada e a de Castela foi direcionado, para além do âmbito da linguagem, ao aspecto cultural, possibilitando que os conquistadores não apenas interpretassem palavras, mas, fundamentalmente, comportamentos, atitudes e pensamentos. Trata-se, portanto, de artigo fundamental para o entendimento profundo do processo de dominação e de aculturação exercido pelos conquistadores da América, história esta até hoje carregada de muitos mistérios e indagações.

Temos ainda a resenha do Professor Dr. Ricardo da Gama Rosa Costa (coordenador do curso de História da FFSD e vice-presidente da Associação de Docentes de nossa IES) sobre o livro de Dênis de Moraes, A Esquerda e o Golpe de 64, obra essencial para o entendimento de período dos mais significativos da História recente do Brasil, reeditada agora pela Editora Expressão Popular. Um aspecto curioso do livro está no fato de que o lançamento da primeira edição, no ano de 1989, ou seja, alguns anos depois do declínio da ditadura em nosso país, aconteceu, dentre outros espaços, no então auditório da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia (hoje Teatro Irmã Sania Cosmelli), com uma palestra do jovem escritor, na época jornalista. Ali nascia também a sólida amizade entre Dênis e Ricardo, que hoje se orgulha em poder produzir esta resenha.

A todos aqueles que continuam lutando pelo sucesso da Revista Tessituras, com destaque para os companheiros e companheiras da Associação de Docentes da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, reiteramos nossos profundos agradecimentos. Aos professores, alunos e ex-alunos da FFSD, assim como aos profissionais do ensino superior de todo o país, reafirmamos que o espaço está aberto a todos aqueles cuja produção acadêmica contribui efetivamente para a construção de espaços de debates e para a melhoria da qualidade social da educação brasileira.



A COMISSÃO EDITORIAL




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